quinta-feira, 26 de novembro de 2009


CANÇÃO DO SILÊNCIO

Meu coração nunca esquecerá este olhar
quando chegaste redescobri em mim
inocência e alegria

Nada a esconder
nem medo
nem ousadia
saltando entre a razão e a magia
o amor me surpreendeu

Hora a hora agarra-se em teus braços
hora a hora o desejo invade o que penso e faço
converto-me em lágrimas de alegria
assim acontece

Só então começo a compreender
o ardente ruído de verão
ouvindo meu delírio
vagamente aflora um movimento

Será a sombra do meu sono?
este amor me inventando
com ternura, encanto, surpresas

iluminando o meu silêncio

ANGELA WARLET

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

ARNALDO ANTUNES POR MARIA BETHÂNIA
A turnê de lançamento de Tua e Encanteira- os dois novos CDS da intérprete, lançados recentemente ao mesmo tempo, chega a Porto Alegre agora no dia 03 de dezembro, no Teatro do Sesi.
Então para ir entrando no clima, lembrei de trazer para compartir com vocês esta bela canção-poesia.
A voz de muitas águas...onde navegamos pelo longo rio humano de tempos..

Debaixo D'água

Composição: Arnaldo Antunes

Debaixo d'água tudo era mais bonito

Mais azul, mais colorido

Só faltava respirar

Mas tinha que respirar
Debaixo d'água se formando como um feto

Sereno, confortável, amado, completo

Sem chão, sem teto, sem contato com o ar

Mas tinha que respirar

Todo dia

Todo dia, todo dia

Todo dia

Todo dia, todo dia
Debaixo d'água por encanto sem sorriso e sem pranto

Sem lamento e sem saber o quanto

Esse momento poderia durar

Mas tinha que respirar
Debaixo d'água ficaria para sempre, ficaria contente

Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar

Mas tinha que respirar

Todo dia

Todo dia, todo dia

todo dia

Todo dia, todo dia
Debaixo d'água, protegido, salvo, fora de perigo

Aliviado, sem perdão e sem pecado

Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar

Mas tinha que respirar
Debaixo d'água tudo era mais bonito

Mais azul, mais colorido

Só faltava respirar

Mas tinha que respirar

Todo dia
Agora que agora é nunca

Agora posso recuar

Agora sinto minha tumba

Agora o peito a retumbar

Agora a última resposta

Agora quartos de hospitais

Agora abrem uma porta

Agora não se chora mais

Agora a chuva evapora

Agora ainda não choveu

Agora tenho mais memória

Agora tenho o que foi meu

Agora passa a paisagem

Agora não me despedi

Agora compro uma passagem

Agora ainda estou aqui

Agora sinto muita sede

Agora já é madrugada

Agora diante da parede

Agora falta uma palavra

Agora o vento no cabelo

Agora toda minha roupa

Agora volta pro novelo

Agora a língua em minha boca

Agora meu avô já vive

Agora meu filho nasceu

Agora o filho que não tive

Agora a criança sou eu

Agora sinto um gosto doce

Agora vejo a cor azul

Agora a mão de quem me trouxe

Agora é só meu corpo nu

Agora eu nasço lá de fora

Agora minha mãe é o ar

Agora eu vivo na barriga

Agora eu brigo pra voltar

Agora

Agora

Agora



EVANESCENTE

Já não imagino
vejo em toda a parte
o dia inteiro em mim
esta saudade

Ah! diante de meus olhos que eram cegos
ressurge o concreto mundo inteligível,familiar
o labirinto dos sentimentos
onde em profundo silêncio
corro a te buscar
Te acho, te prendo
te perco
quando as asas insistem em expansão
onde a névoa encobre a estrada esbranquiçada
as sombras fogem sobre a água do meu olhar
com a gélida calma da ausência


ANGELA WARLET

terça-feira, 24 de novembro de 2009



NESTE VERÃO , O VENTO DESPENTEOU OS CAMPOS

Nesse verão, o vento despenteou os campos e os barcos
andaram aos gritos sobre as ondas. A beleza excessiva
das crianças arrombou os espelhos; e as raparigas,
surpreendendo a intimidade dos pais, enlouqueceram
nos corredores e foram perder-se, também elas,
na volúpia dos dias. Nas árvores centenárias,

rebentaram frutos que inflamavam a concha das mãos
e escorregavam para boca com a pressa dos nomes
proibidos. O sol queimou as páginas do livro
interrompido na violência de um poema e revirou
os cantos do único retrato que resistira à moldura
do tempo. De noite, os rapazes deitam-se à baías

atrás de estrelas; e os amantes, incomodados
com a exiguidade dos quartos, foram fazer amor
nos balneários frios da praia e acordaram nas vozes
um do outro. Já não sei o que disse e o que disseste:
o verão desarrumo os sentimentos.




MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

INSONE

É tua imagem que minhas pálpebras
descerram na noite
apenas
a decisão de um sono que demora

Navega na escuna
entre a bruma e a sombra
por ti, só por ti
fico desperta

A te esperar
varando silêncios
calei o vento e sua voz
estendo meu coração

Ouvido inquieto
em busca de um som
o pensamento
abre a claridade

Em desenhos de luz
me lanço da pedra
em vôo a céu aberto
no sonho
te reconheço

ANGELA WARLET

segunda-feira, 23 de novembro de 2009


FUNDO DO MAR
Quero ver o fundo do mar
esse lugar de onde se desprendem
as ondas
e se arrancamos olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados

Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço


MIA COUTO

domingo, 22 de novembro de 2009


DAS ÁGUAS QUE NÃO SABEMOS

Estranha vida destecendo o tempo
ela não é apenas
mais uma enferma
não há distância entre ela e eu

Revelação suave e sutil
em meus pensamentos
enquanto percorro
o longo corredor
nestes dias de chumbo

Entre paredes fluidas
um cristal ondulante
em direção ao quarto
à luz de nenhum sol

A vida esvaindo-se
abraçada a ela a esperança
devagar
à deriva, lentamente
portas abrindo-se, fechando
vozes, tosse discreta
corpo pálido

Fina sombra
névoas de lágrimas
meus olhos
embaçam à luz do dia

Na tarde inquieta
tudo se enrola
sobre si mesmo
num tapete denso

A dor partilhada une
no mais absorto silêncio
num mar imaginário
de emoções
Fortes diálogos
nuvens de afeto
correm como um rio
entre areias inexoráxeis
esvaindo distâncias

Um filete tênue
navega sem margens
espera a própria vida
sem medo


ANGELA WARLET