Meu coração nunca esquecerá este olhar quando chegaste redescobri em mim inocência e alegria
Nada a esconder nem medo nem ousadia saltando entre a razão e a magia o amor me surpreendeu
Hora a hora agarra-se em teus braços hora a hora o desejo invade o que penso e faço converto-me em lágrimas de alegria assim acontece
Só então começo a compreender o ardente ruído de verão ouvindo meu delírio vagamente aflora um movimento
Será a sombra do meu sono? este amor me inventando com ternura, encanto, surpresas iluminando o meu silêncio
ANGELA WARLET
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
ARNALDO ANTUNES POR MARIA BETHÂNIA
A turnê de lançamento de Tua e Encanteira- os dois novos CDS da intérprete, lançados recentemente ao mesmo tempo, chega a Porto Alegre agora no dia 03 de dezembro, no Teatro do Sesi. Então para ir entrando no clima, lembrei de trazer para compartir com vocês esta bela canção-poesia. A voz de muitas águas...onde navegamos pelo longo rio humano de tempos..
Debaixo D'água
Composição: Arnaldo Antunes
Debaixo d'água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar Debaixo d'água se formando como um feto
Sereno, confortável, amado, completo
Sem chão, sem teto, sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia Debaixo d'água por encanto sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber o quanto
Esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar Debaixo d'água ficaria para sempre, ficaria contente
Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
todo dia
Todo dia, todo dia Debaixo d'água, protegido, salvo, fora de perigo
Aliviado, sem perdão e sem pecado
Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar Debaixo d'água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia Agora que agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu
Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou aqui
Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra
Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu
Agora eu nasço lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar
Agora
Agora
Agora
EVANESCENTE
Já não imagino vejo em toda a parte o dia inteiro em mim esta saudade
Ah! diante de meus olhos que eram cegos ressurge o concreto mundo inteligível,familiar o labirinto dos sentimentos onde em profundo silêncio corro a te buscar
Te acho, te prendo te perco quando as asas insistem em expansão onde a névoa encobre a estrada esbranquiçada as sombras fogem sobre a água do meu olhar com a gélida calma da ausência
ANGELA WARLET
terça-feira, 24 de novembro de 2009
NESTE VERÃO , O VENTO DESPENTEOU OS CAMPOS
Nesse verão, o vento despenteou os campos e os barcos andaram aos gritos sobre as ondas. A beleza excessiva das crianças arrombou os espelhos; e as raparigas, surpreendendo a intimidade dos pais, enlouqueceram nos corredores e foram perder-se, também elas, na volúpia dos dias. Nas árvores centenárias,
rebentaram frutos que inflamavam a concha das mãos e escorregavam para boca com a pressa dos nomes proibidos. O sol queimou as páginas do livro interrompido na violência de um poema e revirou os cantos do único retrato que resistira à moldura do tempo. De noite, os rapazes deitam-se à baías
atrás de estrelas; e os amantes, incomodados com a exiguidade dos quartos, foram fazer amor nos balneários frios da praia e acordaram nas vozes um do outro. Já não sei o que disse e o que disseste: o verão desarrumo os sentimentos.
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
INSONE
É tua imagem que minhas pálpebras descerram na noite apenas a decisão de um sono que demora
Navega na escuna entre a bruma e a sombra por ti, só por ti fico desperta
A te esperar varando silêncios calei o vento e sua voz estendo meu coração
Ouvido inquieto em busca de um som o pensamento abre a claridade
Em desenhos de luz me lanço da pedra em vôo a céu aberto
no sonho
te reconheço
ANGELA WARLET
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
FUNDO DO MAR
Quero ver o fundo do mar
esse lugar de onde se desprendem
as ondas
e se arrancamos olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados
Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço
MIA COUTO
domingo, 22 de novembro de 2009
DAS ÁGUAS QUE NÃO SABEMOS
Estranha vida destecendo o tempo ela não é apenas mais uma enferma não há distância entre ela e eu
Revelação suave e sutil em meus pensamentos enquanto percorro o longo corredor nestes dias de chumbo
Entre paredes fluidas um cristal ondulante em direção ao quarto à luz de nenhum sol
A vida esvaindo-se abraçada a ela a esperança devagar à deriva, lentamente portas abrindo-se, fechando vozes, tosse discreta corpo pálido
Fina sombra névoas de lágrimas meus olhos embaçam à luz do dia
Na tarde inquieta tudo se enrola sobre si mesmo num tapete denso
A dor partilhada une no mais absorto silêncio num mar imaginário de emoções
Fortes diálogos nuvens de afeto correm como um rio entre areias inexoráxeis esvaindo distâncias
Um filete tênue navega sem margens espera a própria vida
Escrever é apenas uma comunhão solitária com um leitor desconhecido que às vezes se manifesta e por um instante nos aquece o coração.
Clarice Lispector